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LIVROS QUE ARDEM


“Só pretendo partilhar o prazer de criar o prazer que eu próprio senti ao criar!”
Neste site partilho, de forma gratuita, tudo o que escrevo. O meu propósito é simples e, ao mesmo tempo, urgente: estimular a leitura, provocar reflexão e manter viva a paixão pelos livros.

Eduardo Janeiro

Escrevo para quem está disposto a chegar

Confesso — e que me perdoem os apressados — que há dias em que desconfio da utilidade da minha própria escrita. Não da sua intenção, que essa permanece firme como teimosia antiga, mas do seu destino, que parece sempre adiado, como carta que nunca encontra destinatário.

Escrevo, é verdade, com um certo gosto pela curva longa da frase, pelo desvio irónico, pela palavra que não se entrega à primeira leitura. Escrevo como quem conversa, não com o ouvido distraído da multidão, mas com aquele raro leitor que aceita sentar-se, acender o pensamento e permanecer. O problema — e aqui começa a minha inquietação — é que esse leitor parece cada vez mais uma espécie em vias de contemplação, quando não de extinção silenciosa.

Os mais novos olham para o texto como quem encara um enigma desnecessário. Não lhes falta inteligência — seria injusto e preguiçoso afirmar tal coisa —, falta-lhes, talvez, o hábito de demorar-se. Foram ensinados a deslizar, não a aprofundar. E a minha escrita, que não desliza, exige deles um gesto quase subversivo: parar.

Os de meia-idade, esses que trazem diplomas e responsabilidades, leem como quem cumpre uma tarefa. Procuram sentido rápido, utilidade imediata, e quando não encontram, abandonam o texto com a mesma eficiência com que arquivam papéis. A literatura, para eles, tornou-se um luxo que não cabe na agenda.

E os mais velhos — ah, esses compreendem. Sorriem aqui, reconhecem ali, percebem o não dito. Mas já não se movem. Já não passam adiante. São leitores que acolhem, mas não propagam. Guardam a compreensão como quem guarda uma fotografia antiga: com carinho, mas sem urgência.

E eu, no meio disso tudo, escrevo.

Escrevo sobre o que vejo, sobre o que me inquieta, sobre essa sociedade que se revela nos gestos mínimos, nos silêncios repetidos, nos hábitos que ninguém questiona. Escrevo porque acredito — ou quero acreditar — que há valor em nomear o que muitos apenas vivem sem perceber.

Mas não nego: há uma certa solidão nesse gesto.

Não é a solidão do abandono, mas a da antecipação. Como quem fala para um tempo que ainda não chegou, ou para leitores que ainda não sabem que o são. E talvez seja esse o consolo possível: admitir que a escrita nem sempre pertence ao presente em que nasce.

Há textos que não encontram leitores — ainda.

E, no entanto, continuo.

Não por heroísmo, que isso seria vaidade disfarçada, mas por uma espécie de fidelidade ao que vejo e sinto. Porque, se desistisse de escrever como escrevo, talvez alcançasse mais olhos, mas perderia o único olhar que me importa manter: o meu.

E no fim — se é que há fim — resta uma pergunta que me acompanha como sombra discreta:

vale mais ser amplamente lido ou profundamente compreendido?

Não tenho resposta. Mas, enquanto a dúvida persistir, continuarei a escrever como quem aposta, não no aplauso imediato, mas na possibilidade remota — e por isso mesmo preciosa — de um encontro verdadeiro entre texto e leitor.

Mesmo que tardio.

Eduardo Janeiro

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